Câncer de estômago
Pedro Santos
| 19-08-2026

· Equipe de Ciências
Câncer de estômago avança
Um estudo internacional aponta aumento dos casos em adultos com menos de 50 anos, enquanto a incidência diminui entre pessoas mais velhas.
Tradicionalmente associado ao envelhecimento, o câncer de estômago, também chamado de câncer gástrico, começa a ganhar um perfil diferente.
Uma pesquisa internacional identificou aumento da incidência da doença entre adultos jovens nos últimos anos, ao mesmo tempo em que os casos diminuem entre faixas etárias mais velhas em diferentes países.
Publicado em abril na revista científica Cancer Biology & Medicine (Biologia e Medicina do Câncer), o estudo chama atenção para a necessidade de investigar novos fatores de risco e reforçar estratégias de prevenção e diagnóstico precoce entre pessoas mais jovens.
Atualmente, o câncer de estômago é o quinto tumor mais frequente no mundo, com quase 1 milhão de novos casos por ano. Mesmo com avanços no diagnóstico e no tratamento, a doença ainda costuma ser identificada em estágios avançados, o que reduz as chances de cura e contribui para as altas taxas de mortalidade, inclusive em países de alta renda.
O que mostra a pesquisa
Os pesquisadores analisaram dados de 2003 a 2017 do GLOBOCAN 2022, que reúne informações de 185 países. De maneira geral, a incidência do câncer de estômago caiu no período, mas houve aumento em países como Nova Zelândia e África do Sul, além de regiões da Europa e das Américas. Também foi observada uma tendência de crescimento entre as mulheres.
Os casos entre jovens chamam atenção
Segundo o levantamento, pessoas nascidas entre as décadas de 1980 e 1990 apresentam taxas significativamente maiores da doença quando comparadas às gerações anteriores.
“O aumento dos casos de câncer gástrico em adultos jovens tem chamado atenção internacionalmente”, observa o oncologista Roberto Pestana, do Einstein Hospital Israelita.
A pesquisa também mostra que o Leste Asiático concentrou quase 54% dos cerca de 968 mil casos registrados no mundo em 2022. A região também respondeu por 48% das aproximadamente 660 mil mortes associadas ao tumor naquele ano.
Entre adultos jovens, algumas condições genéticas podem estar relacionadas à doença, como o câncer gástrico difuso hereditário e a síndrome de Lynch. No entanto, elas explicam apenas cerca de 3% das ocorrências.
“A maioria dos casos ocorre de forma esporádica e parece estar relacionada a mudanças comportamentais, ambientais, alimentares e metabólicas”, afirma Pestana.
H. pylori é principal fator
A bactéria Helicobacter pylori, conhecida como H. pylori, continua sendo o principal fator de risco conhecido para o câncer de estômago.
Ela está relacionada a aproximadamente 90% dos casos de câncer gástrico não cárdia, que afeta a região mais próxima da transição entre o esôfago e o estômago. Estudos indicam que eliminar a bactéria pode reduzir entre 40% e 50% a incidência desse tipo de tumor.
Prevenção mudou o cenário
Nos últimos 50 anos, medidas relacionadas à higiene e à melhoria das condições socioeconômicas contribuíram para diminuir a incidência do câncer gástrico entre pessoas mais velhas e em diversos países asiáticos.
Melhorias no saneamento, maior acesso ao diagnóstico e mudanças nos hábitos alimentares também tiveram impacto. Entre elas estão a redução do consumo de sal e a melhor conservação dos alimentos.
O cenário é diferente entre pessoas com menos de 50 anos. Especialmente em países onde a doença apresentava baixa incidência, o aumento dos casos pode estar relacionado a fatores como obesidade, refluxo gastroesofágico, alterações na alimentação e mudanças no microbioma gástrico.
Jovens podem ter tumores agressivos
A mudança no perfil dos pacientes traz novos desafios para o diagnóstico e o tratamento. De acordo com Roberto Pestana, os tumores que surgem precocemente parecem apresentar características biológicas próprias e, com frequência, comportamento mais agressivo.
Outro problema é que o câncer gástrico ainda é pouco suspeitado em pacientes jovens. Por isso, muitos casos acabam sendo descobertos apenas quando a doença já está em estágio avançado.
Além da H. pylori, outros fatores de risco incluem tabagismo, consumo excessivo de álcool, alimentação rica em produtos processados, obesidade, infecção pelo vírus Epstein-Barr, histórico familiar e algumas síndromes genéticas hereditárias.
Como prevenir o câncer
A principal estratégia de prevenção continua sendo identificar e tratar a infecção por H. pylori. A bactéria pode ser investigada por meio de avaliação médica e, quando confirmada, tratada adequadamente.
Também é recomendado reduzir o consumo de álcool, não fumar, controlar o peso corporal e manter hábitos alimentares saudáveis.
A mudança no perfil etário do câncer de estômago reforça a importância de não ignorar sinais persistentes e de buscar avaliação médica quando houver sintomas preocupantes. Para os especialistas, ampliar a prevenção e o diagnóstico precoce pode ajudar a enfrentar o crescimento da doença entre adultos jovens.