Por que amamos medo
João Cardoso
João Cardoso
| 17-03-2026
Equipe de Entretenimento · Equipe de Entretenimento
Você conhece a cena: as luzes estão apagadas, o ambiente está em silêncio, e o personagem na tela abre lentamente a porta de um armário.
Você sabe que tem algo lá dentro. Sua respiração prende. Seus músculos se contraem. E mesmo assim — você não desvia o olhar. Na verdade, chega até a se inclinar para frente.
Por que nos submetemos voluntariamente a isso? Por que alguém pagaria dinheiro, reservaria tempo e escolheria deliberadamente sentir medo — quando, na vida real, fugiria dessa mesma sensação?
A resposta não é tão simples quanto dizer “é só entretenimento”. É algo mais profundo. É psicológico. E, ao que tudo indica, nosso cérebro é programado para gostar do medo — nas condições certas.

A segurança do medo controlado

O segredo do fascínio pelo terror está em um fato simples: você não está realmente em perigo.
Quando um susto faz seu coração disparar, seu corpo reage como se fosse real — a adrenalina sobe, as pupilas se dilatam e os músculos se preparam para agir.
Mas o cérebro sabe a verdade: você está no sofá da sua sala, com uma tigela de pipoca no colo. Isso cria uma experiência única chamada masoquismo benigno — termo criado pelo psicólogo Dr. Paul Rozin.
Ele explica por que as pessoas gostam de comida muito apimentada, montanhas-russas ou filmes tristes: apreciamos sensações intensas, desde que nos sintamos seguros. Nos filmes de terror, o medo vira uma espécie de exercício mental.
- Você encara a escuridão sem risco real;
- testa seus nervos sem consequências;
- experimenta medo e depois alívio — repetidamente, quase como um ritmo.
No fundo, não se trata apenas do susto. Trata-se de sobreviver a ele.
A socióloga Drª Margee Kerr, que estuda o medo e é autora do livro Scream: Chilling Adventures in the Science of Fear, explica: quando sabemos que não estamos em perigo físico, podemos aproveitar a liberação de endorfinas e dopamina. Essa reação é parecida com sentir grande empolgação ou alegria. Aquela sensação intensa depois do filme? Não é só dopamina. É também orgulho.

Como filmes de terror mexem com sua mente

Diretores não mostram apenas coisas assustadoras. Eles constroem suspense usando truques psicológicos que passam direto pelo nosso cérebro racional.
Pense no som. Em filmes como O Exorcista ou Hereditário, muitas vezes você escuta algo antes de ver — um sussurro, um rangido, um zumbido baixo. Isso acontece porque estímulos sonoros ativam o medo mais rápido que imagens. Nosso cérebro evoluiu para reagir a ruídos repentinos como possíveis ameaças, até mesmo durante o sono.
O ritmo da narrativa também importa. Produções como O Babadook ou A Bruxa não dependem apenas de sustos repentinos. Elas constroem tensão lentamente, usando silêncio, sombras e incerteza. Você não tem medo apenas do que aparece na tela — tem medo do que pode aparecer.
Isso ativa algo que psicólogos chamam de intolerância à incerteza: nosso profundo desconforto em não saber o que vem a seguir. O terror explora isso perfeitamente.
Até a iluminação tem um papel importante:
- a luz baixa limita a visão, forçando o cérebro a preencher lacunas — geralmente imaginando o pior;
- luzes piscando criam sensação de instabilidade e desconforto;
- planos fechados no rosto dos personagens fazem você procurar sinais emocionais — aumentando ainda mais a tensão.
Cada detalhe é pensado para deixar você levemente fora de equilíbrio.

Por que algumas pessoas adoram (e outras não suportam)

Nem todo mundo gosta de terror. Algumas pessoas acham estressante, outras dizem que isso atrapalha o sono. Por que essa diferença? Uma revisão científica publicada em 2019, intitulada (Why) Do You Lie Scary Movies? A Review of the Empirical Research on Psychological Responses to Horror Films, analisou diversos estudos e concluiu que existe uma relação positiva entre a busca por sensações intensas e o prazer em assistir filmes de terror.
Por outro lado, quem não gosta desse gênero costuma se envolver emocionalmente de forma mais profunda, sentindo as emoções como se fossem reais.
Crianças, por exemplo, ainda têm dificuldade em separar ficção de realidade. Por isso, o famoso “monstro debaixo da cama” pode parecer assustador por muito tempo depois que o filme termina.
A personalidade também influencia:
- pessoas extrovertidas costumam gostar da experiência coletiva — gritar junto com os amigos torna tudo mais divertido;
- indivíduos mais ansiosos podem ter dificuldade em se livrar da tensão depois;
- pessoas muito empáticas podem se conectar demais com o medo dos personagens.
Não existe uma forma “certa” de reagir. Mas entender sua própria reação ajuda a escolher melhor o que assistir — e quando.

Os benefícios escondidos de sentir medo

Acredite ou não, assistir a filmes de terror pode trazer benefícios psicológicos reais.
Entre eles estão:
- alívio do estresse — a sensação de relaxamento depois da tensão funciona como uma espécie de limpeza emocional;
- vínculos sociais mais fortes — assistir a um filme assustador juntos cria conexão por meio de reações compartilhadas;
- maior amplitude emocional — o terror explora temas profundos como luto, solidão e medo, tudo envolto em suspense.
No fim das contas, não se trata apenas de gritar de susto. Trata-se de sentir-se mais vivo.
Da próxima vez que você der play em um filme de terror, em vez de perguntar “por que gosto de sentir medo?”Experimente pensar: que parte de mim está pronta para encarar a escuridão — nem que seja por 90 minutos?
Porque, na segurança da sua sala de estar, o medo não é fraqueza. É uma porta. E, às vezes, atravessá-la faz você sair mais forte do outro lado.